Resolvi propor esse fórum por dois motivos. Primeiro porque estou cada vez mais convicto de que falar em inclusão é praticamente o mesmo que falar de educação democrática. Em segundo lugar, porque se fala muito no direito de todos à educação regular (o que eu concordo plenamente e defendo incondicionalmente). Por outro lado, muitos que falam desse direito se esquivam, conscientemente ou não, quando se trata de defender a necessidade de mudar a forma tradicional de ensinar para que as escolas sejam de fato inclusivas. Outros, que lutam pela mudança do paradigma tradicional de ensino, não seguem o mesmo ritmo quando se trata da chamada inclusão da pessoa com deficiência. Daí, acabam mantendo a dicotomia “iguais” de um lado e “diferentes" de outro. Nessa perspectiva, a educação democrática não cabe na inclusão ou vice-e-versa.
Que contradição!
Pelo que é exigido para cada série pré-determinada, meu filho está aquém, não responde cognitivamente o que se espera de quem tem a idade que tem. E aí retrucam: é que ele, por ter a síndrome de Down, precisa de um ensino mais significativo. Ele não pode abstrair!!!!
Mas só ele precisa ter um ensino signitivativo para sustentar o conhecimento e aprender a criar, de uma forma autônoma, o seu próprio processo de aprendizado? Será que todos aqueles que “aprendem no momento certo” estão realmente aprendendo?
Só para iniciar o nosso debate, transcrevo agora algumas frases, que considero chaves, de pessoas que vêm defendendo essa tese, não importando de onde estão partindo: da inclusão ou da educação, pois todos se conectam na necessidade da transformação.
Leiam com atenção e vamos debater:
Mantoan, Maria Teresa Égler, “Inclusão escolar: o que é? Por que? Como fazer?, Ed. Moderna, São Paulo, 2006
“A escola se entupiu do formalismo da racionalidade e cindiu-se em modalidades de ensino, tipos de serviço, grades curriculares, burocracia ..... A inclusão, portanto, implica mudança desse atual paradigma educacional (Mantoan, pg 14)
“Ocorre que a escola se democratizou, abrindo-se a novos grupos educacionais, mas não aos novos conhecimentos. Por isso exclui os que ignoram o conhecimento que ela
valoriza e, assim, entende que democratização é massificação de ensino” (mantoan, pg 15)
“O ensino curricular de nossas escolas, organizado em disciplina, isola, separa os conhecimentos, em vez de reconhecer suas inter-relações, (...) Os sistemas regulares também estão montados a partir de um pensamento que recorta a realidade, que permite dividir os alunos em normais e deficientes (...). Ignora o subjetivo, o afetivo, o criador ....", pg 16
Integração escolar: “A escola não muda como um todo, mas os alunos têm de mudar para se adaptar às suas exigências”, pg 18
Inclusão escolar: “propõem um modo de organização do sistema educacional que considera as necessidades de todos os alunos”, pg 19
“O direito à diferença nas escolas desconstrói, portanto, o sistema atual de significação escolar excludente, normativo, elitista (....) Se a igualdade é referência, podemos inventar o que quisermos para agrupar e rotular os alunos (...)", pg 24
“Os alunos do ensino fundamental estão organizados por séries, o currículo é estruturado por disciplinas e o seu conteúdo é selecionado pelas coordenações pedagógicas, pelos livros didáticos, enfim, por uma “inteligência” que define os saberes e a seqüência em que devem ser ensinados”, p. 33
“O aluno abstrato justifica a maneira excludente de a escola tratar as diferenças”, p. 34
“Não se pode encaixar um projeto novo, como é o caso da inclusão, em uma velha matriz de concepção escolar – daí a necessidade de recriar o modelo educacional vigente. (...) Infelizmente, ainda vigora a visão conservadora de que as escolas de qualidade são as que enchem as cabeças dos alunos com datas, fórmulas, conceitos justapostos, fragmentos”, p. 44
Incluir é “aproximar os alunos entre si, tratar as disciplinas como meios de conhecer melhor o mundo e as pessoas que nos rodeiam, ter como parceiros as famílias (...), predominam a experimentação, a criação, a descoberta, a co-autoria do conhecimento. Vale o que os alunos são capazes de aprender hoje e o que podemos lhes oferecer (...) em um ambiente rico e verdadeiramente estimulador de suas potencialidades.
(...) os alunos são orientados a valorizar a diferença pela convivência com seus pares, (...) pelo clima socioafetivo”, p. 45
“Há alunos – poucos, infelizmente – que rejeitam propostas descontextualizadas de trabalho escolar sem sentido nem atrativos intelectuais: eles protestam, a seu modo, contra um ensino que não os desafia e não atende às suas motivações e seus interesses pessoais (...). Não podemos imaginar uma educação para todos quando caímos na tentação de constituir grupos de alunos por séries, níveis de desempenho escolar e determinados objetivos para cada nível”, p. 51
¿ES POSIBLE CONSTRUIR UNA ESCUELA SIN EXCLUSIONES?
IS IT POSSIBLE TO BUILD A SCHOOL WITHOUT EXCLUSION?
Miguel López MELERO1
Tomei a liberdade de traduzir:
“Durante muito tempo se pensou que a educação inclusiva consistia em “integrar” crianças com algum tipo de descapacidade na escola, mas sem que isso significasse nenhum tipo de mudança da mesma e, o que é pior, sem que mudasse em nada o pensamento do professorado nem sua prática educativa”, Miguel López Melero (Projeto Roma)
AULA: “Entendo a aula como uma comunidade de convivência e aprendizagem quando se produz um intercambio de significados e comportamentos, de recordações e experiências, de sentimentos e emoções, configurando-se um espaço cultural e uma organização com pretensões comuns e com o desejo de entender-se e respeitar-se. E isso só é possível se as crianças têm a oportunidade de intercambiar suas experiências (diálogo) pessoais, de intercambiar pontos de vista diferentes, realizando atividades de maneira cooperativa e solidária e estabelecendo normas de convivência democrática entre todos e todas (buscando o entendimento) e de onde, previamente, tem que haver-se produzido uma situação de interesse e significação para fazer aquilo que desejam fazer (motivação intrínseca)”, Melero
Currículo: “romper com a cultura hegemônica da escola tradicional desejosa de desenvolver um curriculum planificado e igual para todos. É nesse sentido que desde o Projeto Roma falamos de projetos de investigação quando falamos de currículo, de onde não se parte das disciplinas e nem dos livros de textos, e sim de situações problemas, de onde as meninas e os meninos aprendem os mecanismos para descobrir a cultura através da indagação e da cooperação", Melero
"O que pretendemos com os projetos de investigação é criar uma metodologia que favoreça o aprendizado autônomo, mediante a tomada de decisões reais e o desenvolvimento de estratégias para “aprender a aprender (metacognição)".
"O trabalho por projetos de investigação requerem uma transformação da aula tanto nos agrupamentos como na concepção do tempo e do espaço. O ensinamento interativo e o trabalho por grupos heterogêneos de maneira cooperativa hão de ser a nova estrutura organizativa da aula. Esta se organizará de tal maneira que o alunado se ajude uns aos outros, fazendo com que o alunado que ‘não ofereça dificuldades’ (se é que este existe) seja um suporte importante para aqueles que sim as tenham, o professor será sempre o principal apoio em classe para todos"
"Necessita-se um novo profissional para dar sentido a esse modo de conceber a cultura da diversidade, onde o professor há que deixar de ser um profissional como mero aplicador de técnicas e procedimentos (racionalista e técnico) e se há de converter em um curioso intelectual comprometido (investigador) que saiba abrir espaços para que a aula se transforme em um lugar de aprendizagem compartilhado e autônomo, desenvolvendo sua autonomia e sua liberdade como docente comprometido com a mudança e a transformação social, ou seja, como um profissional emancipado, evitando assim ser um instrumento instrumentalizado do sistema", Melero
Pacheco, José, “Berço das desigualdades”, in Gomes, Márcio (organizador), “Construindo trilhas para a Inclusão”, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, Petrópolis, 2009
“Tratando os ‘desiguais’ como se fossem ‘iguais’, em ‘pé de igualdade’, como geralmente acontece, não apenas mantemos a desigualdade, como a aumentamos”, (Pacheco, pg 25)
“Há mais de meio século, Élise Freinet colocava a seguinte questão: ‘como será uma aula onde os alunos não farão, todos ao mesmo tempo, o mesmo?’ (...). Preocupava-se com a imposição de ritmo único a alunos que denotavam diferentes ritmos”,
“A ‘diferença’ é normal, não é deficiente. A sociedade é formada por identidades plurais, particularidades, especificidades. Anormal é pautar o trabalho escolar pela igualdade. Deficientes são as práticas escolares que assentam no pressuposto de que somos todos iguais, que homogeneízam o que é diverso, mascarando ou negando as diferenças ....
Para que se concretize a inclusão é indispensável a alteração do modo como muitas escolas estão organizadas”, pg 26
“Quando se deixará de centrar o problema no aluno, para se centrar numa gestão diversificada do currículo? (...) Por que não mudam as escolas? É porque o que está em causa não é a adoção do método A, ou do método B. O que está em causa é a necessidade de as escolas reconfigurarem suas práticas, para atenderem a diversidade”, p. 27
Educar ....
Não é impor aos alunos um método expositivo, onde todos escutam enfileirados o mesmo conteúdo livresco
É deixar de ensinar a todos como se fosse um só
Guga Dorea, “A microsociologia e a educação para todos”, Revista Linha Direta
Todo aluno, em uma sala de aula, trás uma realidade única em função de seus encontros, fora da escola, com outros seres e lugares. São marcas, muitas vezes, de discriminação e humilhação. Diante disso, o prioritário para a microsociologia é detectar o que Deleuze e Guattari chamaram de multiplicidade de fluxos, muitas vezes imperceptíveis na esfera macro, gerado no transcorrer dos encontros pai-filho, família-escola e professor-aluno, entre outras relações complexas e não lineares como é a nossa sociedade.
Desses encontros, estarão sendo engendrados modos de vida singulares que inclusive ultrapassam os limites do pedagógico,
EDUCAR NÃO É ACOMODAR
A UM “HOJE NORMALIZADO”, Paulo Freire