No último sábado, o Augusto de Franco publicou uma mensagem no seu blog da Escola de Redes, revisitando o excelente texto de Humberto Maturana Uma Abordagem da Educação Atual na Perspectiva da Biologia do Conhecimento. o Celso Sekiguchi também divulgou a mensagem na lista da Rede Politeia

Reli o texto (é sempre bom) e tive a idéia de copiar a iniciativa do Augusto: publicarei regularmente aqui trechos de alguns dos 107 textos que temos em nossa Bilioteca Digital. Quem se interessar, poderá baixar a publicação completa. Inauguro essa nova série de postagens com trechos do capítulo citado acima.
se gostarem, o link para baixar o livro está no final
____________________________________________________________

[...] O QUE É EDUCAR?

O educar se constitui no processo em que a criança ou o adulto convive com o outro e, ao conviver com o outro, se transforma espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais congruente com o do outro no espaço de convivência. O educar ocorre, portanto, todo o tempo e de maneira recíproca. Ocorre como uma transformação estrutural contingente com uma história no conviver, e o resultado disso é que as pessoas aprendem a viver de uma maneira que se configura de acordo com o conviver da comunidade em que vivem. A educação como “sistema educacional” configura um mundo, e os educandos confirmam em seu viver o mundo que viveram em sua educação. Os educadores, por sua vez, confirmam o mundo que viveram ao ser educados no educar.

A educação é um processo contínuo que dura toda a vida, e que faz da comunidade onde vivemos um mundo espontaneamente conservador, ao qual o educar se refere. Isso não significa, é claro, que o mundo do educar não mude, mas sim que a educação, como sistema de formação da criança e do adulto, tem efeitos de longa duração que não mudam facilmente. Há duas épocas ou períodos cruciais na história de toda pessoa que têm conseqüências fundamentais para o tipo de comunidade que trazem consigo em seu viver. São elas a infância e a juventude. Na infância, a criança vive o mundo em que se funda sua possibilidade de converter-se num ser capaz de aceitar e respeitar o outro a partir da aceitação e do respeito de si mesma. Na juventude, experimenta-se a validade desse mundo de convivência na aceitação e no respeito pelo outro a partir da aceitação e do respeito por si mesmo, no começo de uma vida adulta social e individualmente responsável.

Como vivermos é como educaremos, e conservaremos no viver o mundo que vivermos como educandos. E educaremos outros com nosso viver com eles, o mundo que vivermos no conviver.

Mas que mundo queremos?


Quero um mundo em que meus filhos cresçam como pessoas que se aceitam e se respeitam, aceitando e respeitando outros num espaço de convivência em que os outros os aceitam e respeitam a partir do aceitar-se e respeitar-se a si mesmos. Num espaço de convivência desse tipo, a negação do outro será sempre um erro detectável que se pode e se deseja corrigir. Como conseguir isso? É fácil: vivendo esse espaço de convivência.

Vivamos nosso educar de modo que a criança aprenda a aceitar-se e a respeitar-se, ao ser aceita e respeitada em seu ser, porque assim aprenderá a aceitar e a respeitar os outros. Para fazer isso, devemos reconhecer que não somos de nenhum modo transcendente, mas somos num devir, num contínuo ser variável ou estável, mas que não é absoluto nem necessariamente para sempre. Todo sistema é conservador naquilo que lhe é constitutivo, ou se desintegra. Se dizemos que uma criança é de uma certa maneira boa, má, inteligente ou boba, estabilizamos nossa relação com ela de acordo com o que dizemos, e a criança, a menos que se aceite e se respeite, não terá escapatória e cairá na armadilha da não aceitação e do não respeito por si mesma, porque seu devir depende de como ela surge — como criança boa, má, inteligente ou boba — na sua relação conosco. E se a criança não pode aceitar-se e respeitar-se não pode aceitar e respeitar o outro. Vai temer, invejar ou depreciar o outro, mas não o aceitará nem respeitará. E sem aceitação e respeito pelo outro como legítimo outro na convivência não há fenômeno social. [...]

Repito: sem aceitação e respeito por si mesmo não se pode aceitar e respeitar o outro, e sem aceitar o outro como legítimo outro na convivência, não há fenômeno social.

Além disso, uma criança que não se aceita e não se respeita não tem espaço de reflexão, porque está na contínua negação de si mesma e na busca ansiosa do que não é e nem pode ser. [...]

Mas como se obtém na educação a capacidade de ajustar-se a qualquer domínio do conhecer (fazer)? É preciso, por acaso, saber tudo desde o começo? Não, não precisa saber tudo desde o começo, mas, sim, é necessária uma postura reflexiva no mundo no qual se vive; são necessários a aceitação e o respeito por si mesmo e pelos outros sem a premência da competição. Se aprendi a conhecer e a respeitar meu mundo, seja este o campo, a montanha, a cidade, o bosque ou o mar, e não a negá-lo ou a destruí-lo, e aprendi a refletir na aceitação e respeito por mim mesmo, posso aprender quaisquer fazeres. [...]

Para que educar?

Às vezes falamos como se não houvesse alternativa para um mundo de luta e competição, e como se devêssemos preparar nossas crianças e jovens para essa realidade. Tal atitude se baseia num erro e gera um engano. [...]

O que fazer? Não castiguemos nossas crianças por serem, ao corrigir suas ações. Não desvalorizemos nossas crianças em função daquilo que não sabem; valorizemos seu saber. Guiemos nossas crianças na direção de um fazer (saber) que tenha relação com seu mundo cotidiano. Convidemos nossas crianças a olhar o que fazem e, sobretudo, não as levemos a competir.
____________________________________________________________

Maturana, Humberto (2002) - Emoções e linguagem na educação e na política
Abordagem da educação atual na perspectiva da Biologia do Conhecimento. 96 p. – 675 kb
BAIXAR O LIVRO

Exibições: 3160

Tags: Biologia do Conhecimento, Humberto, Maturana

Comentário de Eric Vieira em 23 setembro 2009 às 19:12
Esse livro é muito bom.
Comentário de Monica Carvalho em 24 setembro 2009 às 14:59
Muito obrigada Luiz, eu não conhecia o texto!
Comentário de Celso Sekiguchi em 24 setembro 2009 às 15:43
Concordo com todos, mas pensando diferente (só um pouco), para poder agregar algum valor - numa perspectiva cada vez maior de reflexão com integridade e integração, ou seja de uma economia da abundância, só passível de desenvolvimento com espíritos críticos e abertos e se trabalhada via redes distribuídas (e, portanto, não hierárquicas) sobre as quais conversamos bastante ontem, com Guga, Carla, Carol Sumiê (tbem da Politeia) e o próprio Luiz - só incluiria na citação acima umas duas palavras:

- "e toda a sua diversidade" - logo após "respeitar meu (ou seria tbem nosso, ou de tod@s?) mundo"; e
- "e pelos demais", após a "aceitação e o respeito por mim mesmo" - sejam esses "outros" (tbem existentes dentro de cada um de nós) o semelhante, os de outras "tribos" (mesmo as não tão aceitas por mim ou por outros...) e todos os demais seres, culturas ou ambientes!

Daí, sim, penso que estaremos um pouco mais aptos não somente a "aprender (como apreender profunda e verdadeiramente) quaisquer fazeres", como a empreender, colocar em ação, fomentar e empoderar a sociedade e seus diversos agentes/segmentos sociais a tbem praticar(em) e colocar(em) em ação, as nossas devidas intenções, sonhos, desejos e interesses, individuais e coletivos!

Se não for pura viagem-zen, que seja a apenas o(uma) reflexo(ão) de uma ins-piração provocada por estes textos, autores e vãos (mas importantíssimos) senti-momentos pensativos e reflexivos...

Abs, Celso
Comentário de Guga Dorea em 25 setembro 2009 às 0:45
Acredito que o recado mais importante que o Maturana quis passar (Não é atoa que ele repete) é que sem o respieto e a aceitação de si mesmo não se pode aceitar e respeitar o outro. Então vai aí algumas questões. Se uma pessoa dita normal trata a outra como sendo negativamente diferente, apenas porque essa não é igual ao seu modo de vida, será que ela ela está aceitando e respeitando a si mesma? Se a todo momento estamos dizendo que o "diferente" tem alguns déficits que devem ser preenchidos para que essa pessoa possa entrar no "seleto mundo dos iguais" - e dizemos a todo instante que ela tem essa tarefa árdua na vida - não estamos produzindo uma pessoa que não vai aceitar e respeitar a si mesma? Será que as pessoas que colocam no outro toda o estereótipo do negativo, não está negando o que elas mesmas vêem de negativo em si mesmo e não querem reconhecer? Como disse o filósofo Pierre Levy (muito conhecido pelos que gostam da idéia de rede), se eu não reconheço o que me causa algum tipo de sofrimento jamais poderei vencê-lo. E, segundo ele, não adianta negar a existência do sofrimento, pois é justamente aí que ele vem com toda força e nos arremata. Então, ao colocar no outro, naquele que se dfere de mim por algum motivo, todo um rótulo de que é a pessoa que sofre, será que não estou negando o meu próprio sofrimento? E se eu estou negando o meu próprio sofrimento, como atuar na potencialização do outro, que é visto como limitado? A pergunta que fica é a seguinte: se eu não respeito o mundo do outro, como vou respeitar o meu próprio mundo? Nossa, olha a viagem que o Maturana me faz fazer. Se essas questões fizerem algum sentido para quem as tiverem lido, dêem continuidade. Um grande abraço, Guga

Comentar

Você precisa ser um membro de Românticos Conspiradores para adicionar comentários!

Entrar em Românticos Conspiradores

© 2014   Criado por Nilton Lessa.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço