O quase total desconhecimento no Brasil sobre os estudos de Wilhelm Guillermo Dilthey (1833 - 1911) sobre Pedagogia talvez seja consequente ao fato de que, para Dilthey os postulados e regras universais da Pedagogia, sempre condicionados historicamente pelo ethos nacional, tem por teleologia:

-a “direção da atenção”;

-o “cultivo multilateral das intuições”;

-o “desenvolvimento e recheio da memória”;

-a promoção da conexão da atenção, das intuições e da memória a partir de um determinado princípio historicamente condicionado.

 Os quatro pilares (ou recheios) do ethos nacional, condicionante dos postulados e regras universais da Pedagogia, compoem o que denomino de memória histórica.

De imediato, convém destacar igualmente a posição não psicológica nem psicologista do pensamento diltheyano: as faculdades psíquicas (e não psicológicas) da atenção, da memória e da intuição, enfim o eu e o pensamento são formações e desenvolvimentos historicamente condicionados. Noutros termos, a razão, a existência, a subjetividade humanas são históricas: eis o princípio da razão histórica

A arqueologia da mente humana é histórica e não psicológica: as enviezadas concepções das Escolas Psicológicas sobre estágios de desenvolvimento, centrados no indivíduo psíquico mais ou menos isolado são expressões históricas de diferenciação e de aperfeiçoamento de um determinado indivíduo num determinado contexto social. 

O discurso ainda vigente, entranhado em falsos dualismos, insiste nos pólos inexistentes de objetividade e de subjetividade: inexistentes porque tudo o que existe no mundo sócio-histórico-humano é objetivação do espírito humano. Tudo é objetividade e toda objetividade é histórica.

 O determinado princípio historicamente condicionado é para Dilthey o ethos nacional, o ideal de sociedade, o ideal de vida, enfim, o ideal de formação de um determinado povo num determinado momento histórico.

 O ethos nacional, a não ser fundido e confundido com as experiências históricas do absolutismo e do imperialismo, é o definidor político dos conteúdos da Pedagogia; talvez por isso, Dumerval Trigueiro Mendes (1998), prefaciando a obra por ele mesmo coordenada, afirma: a Pedagogia oficial brasileira carece de conteúdos e reduz-se a um amontoado ou “moinhos das leis” que, em última instância, destrói a própria experiência educacional. Ou seja, falta à Pedagogia brasileira ethos nacional de onde se forma a própria concepção política do que seja Pedagogia.

Aparentemente contraditório na mesma obra e noutro artigo, Mendes afirma: a “pedagogia só tem especificidade própria como método de coordenar e aplicar saberes que a transcendem. Substancializar a pedagogia representa uma tentativa falaciosa e funesta”.

Quais seriam os saberes transcendentes à Pedagogia? O próprio Dumerval Mendes afirma: o mal da educação é ser ela ocupação de pedagogos mais que de cientistas sociais, filósofos, artistas, escritores e tantos outros profissionais; nesse caso, os saberes transcendentes à Pedagogia, esvaziada de conteúdos e definida como método da educação, estariam em todas essas possíveis áreas da atividade e do conhecimento.

Duas concepções de mundo diferentes estão provavelmente em jogo: a historista diltheyana para a qual Pedagogia é ciência e filosofia política da Educação e para a qual Educação é teleológica atividade-meio; e a marxista de Dumerval Mendes para a qual Pedagogia é método da Educação e Educação é teleológica atividade-fim.

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OBRAS CONSULTADAS

DILTHEY, Wilhelm. Fundamentos de un sistema de Pedagogia. 3. ed. Buenos Aires: Losada.  1949a

DILTHEY, Wilhelm Guillermo. História de la pedagogía. 5. ed. Buenos Aires: Losada. 1957

DILTHEY, Wilhelm Guillermo. Crítica de la razón histórica. Barcelona: Península. 1986

MENDES, Durmeval Trigueiro, coordenação. Filosofia da educação brasileira. 6. ed.  Rio de Janeiro:Civilização Brasileira. 1998 


Exibições: 121

Tags: Dilthey, Educação, Pedagogia

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